30 de jul de 2013

Já foram 51 caixinhas e tantas emoções...

Acabei de voltar da rua, depois de fazer os últimos arremates na caixinha de número 51, que iniciei no dia 16 de junho, mas ficou apenas nos 5 minutos de rabiscos iniciais, por falta de autorização...

 A verdade é que acabei abandonando a caixinha desse jeito mesmo, sem pretensão de voltar pra terminar. Até ontem, quando passei de skate pela Av. Atlântica fechada e senti o clima propício para finalizar minha obra. Pra não ter o trabalho de ser parado mais uma vez pela burocracia, desisti da arte original ( é a segunda vez que essa obra fica exatamente assim, adivinhe porquê...) e optei por algo abstrato, colorido e simples. Só parei em casa pra tomar banho e me livrar da roupa molhada, voltando com tudo pronto pra detonar!


Acho que levei umas 2 horas pra acabar, sem estresse ou repressão. Turistas e peregrinos paravam pra falar algo ou fotografar. Num grupo de 4 pessoas, ouvi uma mulher falando em inglês: "hey, this is illegal", prontamente respondido por mim "Not in Brazil" - "This is art!". Outra mulher do grupo sorriu pra aliviar a tensão do comentário anterior e respondeu "It´s beautiful!".

Baixe o A4 da arte "Quantum" AQUI!

Engraçado ouvir isso, mas o grafite não é legal em alguns países, apesar de ser cultuado no mundo inteiro hoje em dia (ontem mesmo um policial veio parabenizar meu trabalho e disse que esteve com um pessoal da Austrália que falou muito bem do grafite brazuca!). E por sorte, se tornou legal aqui através da lei 12408, sancionada pela Presidente Dilma em 2011, exatamente no dia do meu aniversário (olha a coincidência!).

Sabendo que tais caixas já vinham sendo pintadas, ainda que timidamente, e que as mesmas não eram nenhum "monumento", foi nelas que comecei a minha saga. Sem autorização mesmo...

E da primeira à 51ª, muitas histórias marcaram essa trajetória, que apenas começou.

Essa foi a 7ª e ainda resiste em frente ao TRE na Barata Ribeiro. Comecei a pintar por volta de 17h e alguém que me viu pela câmera do prédio, veio desesperadamente correndo lá de dentro pra me parar, mas desistiu quando viu que eu estava grafitando.

A do Pepê foi a 9ª e também continua lá pela Bolívar. Nos primeiros minutos, um bombeiro veio com aquela conversa fiada de autorização mas não insistiu depois que eu pintei a tampa que cobria o rádio de seu carro. Já no fim, o motorista de um caminhão passou gritando "Bota pra Maria" e foi exatamente o que eu fiz.

A do elefantinho foi a 11ª e por causa de uma denúncia anônima, provavelmente da dona da loja que reclamou do cheiro da tinta, dei um rolé de Gol Bolinha com minha amiga Suzana por alguns quarteirões até a 19ª DP, onde fiquei apenas 5 minutos esperando até ser liberado pelo delegado, que não fazia idéia do que eram essas caixinhas. Com a loja fechada, voltei pra terminar a arte numa boa.

A do inseto brincando de asa delta com a folha foi a 28ª. Por causa dela, conheci um casal que me indicou para pintar o muro mais bonito da Vinícius de Moraes. No mesmo dia, depois de tirar as últimas fotos, tive o desprazer de visitar a 12ª DP depois de ser "cagoetado" por um cara que se dizia Guardian Angel e que o mesmo fazia questão de apagar todos os grafites realizados nesta caixa. Dali até a 12ª, aluguei bastante o ouvido dos policiais. Chegando lá, um deles fuçou o quanto pôde pra achar alguma "sujeira", na tentativa de me incriminar, mas não deu em nada. Ainda me deu o recado pra "nunca mais pintar por ali" e que "eu ia me ver com o delegado, caso isso acontecesse"...


A segunda "Elevation" foi a caixa de número 31. Já no finalzinho da festa, um policial à paisana veio cheio de atitude pro meu lado, mas acabou me liberando por que eu estava sem documentos. O mais legal foi chegar em casa e constatar que eu havia ganhado 2 ingressos pro show do BNegão & os Seletores de Frequência e precisava mandar a resposta até às 18h. Se não fosse aquele PM, teria perdido um showzaço. E ainda os 100 reais que achei voltando pra casa. Ainda deixei 20 pra um morador de rua que estava perto e mal podia acreditar naquela cena.

A 39ª, representando o sacrifício que cada um faz pelo que ama, foi um aperitivo pro elefantinho mais punk de Copa. A idéia inicial era pintar o tapume de uma loja, mas desisti da idéia, porque os GMs estavam "plantados" bem na frente. Voltei pra retocar no mesmo dia e ganhei R$ 20 de uma gentil senhora, fã do meu trabalho.

A 41ª foi a segunda versão da "How Far will we go?", realizada na mesma caixa na qual ainda se encontra e recebeu uma breve visita da patrulha local, através de uma denúncia de "pichação". Diante da arte, o policial constatou que a denúncia não tinha fundamento e me deixou finalizar sossegado, depois de coletar alguns dados.

Na tarde em que resolvi pintar a 44ª caixa, tive o azar de encontrar com uma senhora "de mal com a vida", que passava por aquele local e não só me questionou sobre a necessidade de uma autorização, como também fez questão de chamar os trogloditas da GM. Aos berros, me xingando de tudo que é nome, me acompanhou até a pickup da GM e entrou num táxi, comunicando que tinha câncer. Como fui educado e não revidei às grosserias da cidadã, apenas minhas latas foram apreendidas, mesmo com algum choro e muita conversa. No dia seguinte, recuperei tudo mas a partir daí, nunca mais pintei essas caixinhas com o mesmo prazer, nem com a mesma quantidade de cores. Voltei algum tempo depois pra mandar a arte que havia criado para a 7ª edição do PXE and the ROCKS, meu programa na Rádio Legalize.


Um novo sinal surgiu próximo ao famoso Hotel Fasano em Ipanema e com ele, a 48ª caixa que serviu de suporte para a segunda versão da arte "Zen War", realizada num domingão de sol. Pra variar, algum infeliz chamou a polícia, mas não deu em nada, porque os policiais viram que eu estava fazendo arte.


 E recentemente, voltei à Sá Ferreira pra pintar um detalhe da arte "Gopis". Já nos minutos finais, uma patrulha da GM se aproximou e pra variar, veio com aquela velha história de autorização. Falei que já estava "trabalhando" ali por horas e várias patrulhas já haviam passado sem indagar qualquer coisa. Sabendo que a situação não ia mudar, exceto para o bairro, que ganhava mais uma arte, eles se foram.


Baixe o A4 da arte "Gopis" AQUI!

Vinte dias depois da primeira, 30 caixinhas foram pintadas só em Copacabana. Minha idéia inicial era fazer uma galeria ao ar livre, mas depois de tanta burocracia e repressão, acabei relaxando e agora, só acontece o que tem que acontecer. Nunca recebi um tostão da prefeitura pra realizar essas pinturas, mas esse desprendimento, me deu a liberdade necessária para evoluir criando o que me desse na telha.


Se você quiser grafitar na rua, corra atrás das autorizações necessárias e evite stress!

Agradecimentos aos moradores de Copacabana e aos policiais do 19º BPM.







Nenhum comentário: